Santa Catarina Hoje é Também A Falta de Educação do Brasil



Mesmo com a presença da Força Nacional de Segurança os ataques em Santa Catarina continuam. Este fato mostra como uma força paralela ao governo e controlada pelo tráfico, consegue, mesmo usando estratégias rudimentares, obter resultados, que nesse caso é o pânico. Matéria do jornal O Estado são Paulo reporta que nas "48 horas de atuação dos cerca de 350 federais, cinco ocorrências foram registradas pela Polícia Militar catarinense. Agora já são 111 os atentados praticados em 36 municípios nos últimos 20 dias. Do total de atentados, 43 foram contra ônibus".

Como já foi comentado aqui, esses eventos acontecem em outras cidades e ao que tudo indica eles não vão parar por aqui. Eles retornam como aquela vela de aniversário que se acende de novo logo após soprá-las em baixo de gritos de parabéns, assovios e palmas, só para começar tudo de novo...

Mas por quê o crime organizado consegue desestabilizar a ordem com tanta facilidade? O seus soldados em liberdade, não têm medo da polícia, não têm medo do governo, e parecem não ter medo de ninguém e de nada. Parece que não têm nada a perder. Talvez seja o efeito do uso de drogas em suas mentes, ou talvez porque muitos deles sempre se sentiram como se nunca tivessem nada a perder.


(FOTO: James Tavares)

Pode parecer perca de tempo entender como se dá essa adesão a esse poder paralelo que é o crime organizado. Hoje, esse poder paralelo está presente no consciente urbano brasileiro tornando-se parte da cultura oral, escrita, e áudio-visual. Mas como isso acontece? Como esse poder não para de crescer?

Uma das explicações está na forma pela qual o governo brasileiro trata seus cidadãos menos privilegiados economicamente. Além dos programas básicos de auxílio às comunidades mais pobres da população brasileira, como o bolsa família, por exemplo (que é um dos mais louváveis programas já realizados pelo governo brasileiro em sua história, e que é, consequentemente, fortemente combatido por um grupo não pequeno e nem sempre das classes mais altas), e poucos outros programas referente a educação (como exemplo, o programa de cotas nas universidades), nenhum outro programa veio para inserir os jovens brasileiros dentro da sociedade de forma eficaz.

Se olharmos para a área da educação podemos dizer que o governo não faz muito que venha a ter um caráter de seriedade, e que seja levado sério a longo prazo--acredito que com exceção das novas avaliações dos estudantes brasileiros que criam dados mais precisos para uma avaliação do ensino e faz as escolas se esforçarem para levantar seus índices (ou fraudá-los).

No entanto, o governo federal sabe como encher linguiça e fazer gambiarras.

O governo agora prepara um projeto para trazer de volta brasileiros que foram para o exterior e se especializaram por lá, para preencher a mão-de-obra especializada escassa nas terras de cá. Até aí, tudo bem. Nada demais, muito embora não há necessidade de se gastar dinheiro e perder tempo planejando isso, pois se esses profissionais quiserem voltar, eles voltam por conta própria, mas enfim.

Mas além deste projeto para preencher a falta de profissionais especializados, o governo estuda um plano extremamente leviano: estudar novas regras para trazer estrangeiros para preencher a demanda de profissionais especializados, demanda esta criada pelo estabelecimento de empresas estrangeiras no Brasil, bem como pelas novas áreas abertas com a exploração do pré-sal, e com várias outras áreas de inovação tecnológica que já se inserem em território nacional.

Fábio Pereira Ribeiro fala sobre isso em artigo intitulado "Importar mão de obra resolve?", publicado ontem no site Diário da Rússia. Ribeiro nos diz:

"Com a atitude que está sendo tomada, o governo brasileiro confirma que as universidades brasileiras (públicas e privadas) não formam mão de obra qualificada para a demanda atual, e o que presta está na mão de obra estrangeira, principalmente de países que estão em crise, como no caso de Portugal."

A mensagem do governo parece dizer aos tantos milhares de formandos brasileiros que eles se danem, pois paparicar estrangeiros é a especialidade do governo brasileiro desde seus primórdios como nação. E fora isso, sem sombra de dúvidas, importar mão-de-obra especializada é mais fácil "do que cobrar qualidade e aproveitamento da mão de obra já formada", como argumenta Fábio Pereira Ribeiro.

E nada contra a uma lei de imigração mais flexível, e nem se quer repetir aqui o discurso retrógrado usado pelos conservadores estadunidenses sobre imigração naquele país, mas um pai e uma mãe nunca deixariam seus filhos passarem qualquer tipo de necessidade para ajudar o açougueiro a pagar suas contas e dívidas sabendo que não haverá reciprocidade no futuro. Apesar da pobreza da metáfora usada, o que ocorre é que quando esses pais escolhem ajudar o açougueiro, seus filhos são acolhidos por outros, e hoje em dia quem acolhe é o poder paralelo.

Pois bem, a escola. Se pensarmos bem, já no início da vida escolar dos filhos e filhas das camadas bem menos privilegiadas já têm seu confronto direto com uma das maiores sabotagens arquitetadas pelo governos federal, estaduais, e municipais para ferrar com a vida dessas crianças: escolas podres, professores mal preparados, e o pior, professores extremamente mal remunerados.

Em termos de educação, o Brasil vai mal, mas muito mal mesmo. O Brasil é o penúltimo colocado em um ranking de educação de 40 países (LEIA MAIS), e como relatou o Jornal do Brasil no ano passado, "Salário de professor no Brasil está entre os piores do mundo" segundo um levantamento realizado pela ONU, Banco Mundial e Organização para a Cooperação e do Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o salário dos professores de escolas de ensino fundamental. Já no ensino superior a coisa não é tão melhor como mostra o Correiro de Estado de ontem, "Brasil é o 18º em salário de professor" em um estudo feito em instituições de ensino superior de 28 países.

E ao que tudo indica a situação dos professores não vai mudar. Pelo menos se depender, é claro, do governo federal. No que se refere aos professores das redes estaduais e municipais de educação, o ministro da educação, Aluísio Mercadante, em janeiro deste ano já deixou isso bem claro. O site Último Segundo-IG, publicou:

"Mercadante defende freio no índice de aumento de piso do professor. Em palestra a prefeitos ministro da Educação disse que é preciso rever lei ainda este ano para que reajustes não quebrem prefeituras e governos estaduais".

O ministro Mercadante se esquece ou omite pelo menos uma das verdadeiras causas de quebras dos governos estaduais e municipais: políticos e administrações corruptas.

O site JusBrasil de janeiro deste ano revelou que "Salários de prefeitos aumentam em 12 capitais; Salvador tem maior reajuste" (73,4%). O artigo continua, "Outras capitais que tiveram aumento foram Florianópolis (52,3%), Natal (42,8%), Aracaju (40,3%), Campo Grande (36%), Teresina (27,9%), Porto Velho (27,1%), Vitória (24,6%), Belo Horizonte (22,8%), João Pessoa (22,2%), Macapá (13,2%) e Belém (12,7%)". A Câmara Municipal de Cuiabá promulgou a Lei 5.644, que altera o salário do prefeito Mauro Mendes (PSB) em 46%, e receberá R$ 22 mil--salário maior do que o do governador do Mato Grosso, que recebe R$ 15.837,88 por mês.

Já o reajuste do piso salarial dos professores do início deste ano, e que não segue a lei de piso salarial da categoria de 2008, pelos motivos alegados pelo ministro Mercadante, foi de 7,97%.

Unindo aos generosos salário dos prefeitos, um outro fator é também responsável pela quebra das prefeituras, ou seja, a política da corrupção. Um artigo publicado em dezembro do ano passado no site R7 diz que a "Polícia Federal apura desvio de verba e corrupção em prefeituras" somando um total de são 3.167 inquéritos, tendo o Maranhão no topo como o estado com maio número de casos. O mais triste é que são 484 prefeitos e ex-prefeitos listados "por violação ao Decreto Lei 201/67, que define os ilícitos de responsabilidade de administradores municipais", diz ainda a matéria.

Com os professores abandonados e escolas abandonadas, as crianças e adolescentes atendidos pela rede pública de ensino estão também abandonados.

E é assim, é desta forma que o governo brasileiro facilita a vida do crime organizado. Fornecendo ao poder do tráfico uma mão-de-obra crua e pronta para ser preparada, para ser formada; e por outro lado, este mesmo governo que importar mão-de-obra especializada.

Os programas sociais, educacionais, habitacionais, culturais, ou seja, quaisquer que sejam os programas e projetos que visem as classes mais baixas do Brasil são deixados de lado, ou confeccionados com material altamente perecíveis. Os pobres existem, muito embora hoje em dia a mídia e o governo nos seus discursos públicos, insistam somente em focar no crescimento econômico inédito na história mais recente do Brasil.

Ah, mas os pobre agora têm bolsa família, dirão alguns como se esse fosse um argumento cabível durante as batalhas e guerrilhas que hoje ocorrem em Santa Catarina. Os pobres de cidadania brasileira somente servem como alvo dos políticos em suas obras sociais/alavancas-eleitoreiras, e por isso não criam projetos com impacto social profundo.

Ah, mas com mais projetos sociais como o bolsa família, os pobres vão ter mais filhos... Não, não, não. O bolsa família não faz isso, mas se o medo é ter mais filhos de pobre nascendo, que se elaborem e liberem os projetos de controle de natalidade, usem pílulas e outros contraceptivos que foram criados para esse fim. Elabore e implemente projetos de educação sexual para jovens. Ou seja, utilizem projetos que são usados pelos reais países do Primeiro Mundo e que dão resultados. Dialogue com as alas conservadoras do congresso, pois as mesmas não terão como oferecer alternativas melhores. E tente também convencer os filhos das classes mais abastadas a pararem de usar drogas e de fortalecer este mercado, pelo menos até a liberação das drogas mais leves. Invista mais em saúde e em centros de recuperação de drogados.

Mas enquanto Santa Catarina pega fogo como já pegou fogo no Rio de Janeiro e São Paulo e em outras várias cidades brasileiras, alguns não poucos membros do Congresso Nacional investem muita energia no Projeto de Cura Gay. Enquanto Santa Catarina pega fogo, os políticos ficha-sujas continuam se reelegendo. Enquanto Santa Catarina pega fogo, o governo quer ajudar as empresas estrangeiras a suprirem suas demandas por mão-de-obra especializada com estrangeiros capacitados. Enquanto Santa Catarina pega fogo, políticos embolsam verbas federais destinadas às vítimas de desastres naturais. Enquanto Santa Catarina pega fogo o contraventor Carlinhos Cachoeira continua em liberdade mesmo tendo sido condenado a mais de 39 anos de prisão. Enquanto Santa Catarina é atacada, prefeitos aumentam absurdamente seus próprios salários. Enquanto o povo Santa Catarinense sofre com a guerra, o Brasil briga internacionalmente para abrigar dois dos maiores e mais ambiciosos eventos mundiais, e depois se descabela com os preparativos dos mesmos. Enquanto Santa Catarina pega fogo, o governo pensa em trem-bala quando o país não tem sequer um sistema ferroviário interestadual  de passageiros...

Enquanto Santa Catarina pega fogo, os professores se arrastam até a escola para se chocarem com alunos que não os escutam e não os respeitam assim como fazem os governos federal, estaduais, e municipais. E é assim que o Brasil além de sofrer com a violência, também sofre com a sua falta de educação.

Professores bem remunerados não quebram o município, muito menos o estado. O quê vem quebrando o estado de Santa Catarina, neste exato momento, é o poder paralelo ao Estado; paralelo ao poder do governo que sisplesmente abandonou e vem abandonando seus filhos mais pobres. O que quebra o estado é a impunidade que cobre, abraça, e acaricia e protege os políticos corruptos brasileiros, consequentemente fornecendo o exemplo para o crescimento de um poder paralelo que se utiliza dos cidadãos abandonados por um Estado corroído pela corrupção.

O reforço policial, as prisões maiores e mais seguras, e a Força de Segurança Nacional como no caso atual, não resolverão a situação da violência no país se esses aparatos continuarem a ser usados isoladamente de outros investimentos. O combate a corrupção e um investimento sério em educação é a solução não só para diminuir a violência, mas também para vários outros problemas graves que o Brasil se recusa a enfrentar. Educação pode não resolver tudo, mas certamente vai ajudar muito a pátria mãe gentil a se ajudar em momentos difíceis.

Quando Santa Catarina pega fogo, o Brasil perde mais uma batalha contra um poder que cresce mais e mais a cada dia.



/ca











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