Oscar 2013: A Noite de Gala da Política e Políticas Cinematográficas





A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciará a entrega dos prêmios no próximo domingo, 24, com direito a grandes debates políticos.


Quando se chega nessa etapa, já existem muitos favoritos, bem como aqueles filmes que parecem que já ganharam pela crítica.

                O filme favorito para o prêmio de Melhor Filme é “Argo”, filme dirigido por Ben Afleck que já vem recebendo os prêmios que antecedem e, que de certa forma, servem como indicadores dos ganhadores do Oscar, conforme matéria do Portal G1. O filme do galã e diretor Ben Afleck ganhou o troféu de melhor filme do também grande prêmio Globo de Ouro, em janeiro deste ano, mas também conseguiu levar os prêmios das grandes associações, ou sindicatos, de profissionais da indústria do cinema estadunidense. “Argo” foi premiado pela Associação de Atores (Screen Actors Guild), Associação de Diretores (Directors Guild of America), Associação de Produtores (Producers Guild of America), e pela Associação de Roteiristas (Writers Guild of America). Sua grande chance de ganhar o Oscar de melhor filme, e alguns outros, se baseia no fato de que membros destes sindicatos fazem parte da escolha dos prêmios do Oscar. Isso indica que o filme tem grandes chances de ganhar o Oscar, pois tem um boa produção, boa direção, bom roteiro, e um bom elenco.


Poster do filme "Argo"


“Argo”, como os outros favoritos ao prêmio de melhor filme, têm um enredo político, como hoje analisou matéria da AFP publicada pela Revista Exame.

Baseado em uma história real e um ex-funcionário da CIA, o filme de suspense com dosagens de humor conta a saga de um resgate realizado pela CIA de seis diplomatas americanos que se encontravam escondidos na casa do embaixador do Canadá em Teerã durante a revolução iraniana de 1979, resgate que contou com a ajuda de Hollywood (podendo ser este o fator de tanta simpatia pelo filme mostrado pelos membros da indústria cinematográfica). 


Poster do filme "Lincoln"


O outro filme com conteúdo político que também pode levar a estatueta é “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, que mesmo perdendo o Globo de Ouro para “Argo”, fez história durante a mesma apresentação das premiações em janeiro, quando o ex-presidente Bill Clinton fez uma aparição e discursou elogios ao filme, traçando paralelos entre Lincoln e Obama no que se refere a divisão partidária dentro do congresso para aprovação de leis (o quê no caso de Lincoln, a briga pela aprovação do fim da escravidão).


E falando de escravidão chega-se a “Django Livre” do cultuado diretor Quentin Tarantino que também aparece na matéria da Revista Exame. O filme já se tornou o mais atacado filme dos filmes lançados no ano passado. E sendo que o diretor é conhecido pelo uso cômico e gratuito de cenas de violência, “Django Livre” não foge ao estilo do diretor, que desta vez conta a história de escravo que é libertado e se torna caçador de recompensas.

Mas mesmo com um conteúdo político diferente dos outros filmes, a nova produção de Tarantino mexe em um tema histórico frágil que é a escravidão nos Estados Unidos. O primeiro ataque veio de fortes vozes do comunidade afro estadunidense, como Spike Lee, Travis Smiley e outros, que consideraram o filme uma piada de mal gosto contra a negra dos Estados Unidos, e principalmente a sua história; o segundo ataque veio logo junto ao incidente em uma escola de Newtown, Connecticut, quando alunos foram assassinados por um louco armado levando o país, mais uma vez, a um grande e profundo debate sobre o porte e comercialização de arma de fogo.Este incidente fez o filme ser criticado por estimular a violência no país.


                Agora vamos pensar bem, e brevemente, na matéria da AFP no que se refere aos conteúdos políticos dos filmes e, mais atentamente ao filme “Django Livre” de Tarantino. Tanto o filme “Argo” quanto “Lincoln”, apresentam em seus enredos políticos, símbolos culturais muito significativos que têm um apelo ao patriotismo estadunidense que foi fortemente acentuado após o catastrófico e real evento de 11 de setembro de 2001, seguido pelas tropas que invadiram o Iraque.


Steven Spielberg no set de filmagens de "Lincoln"
(Foto: David James / Disney-DreamWorks)

“Lincoln” de um lado, conta da histórica da figura que marcou a história daquela nação não só com sua luta para por fim a escravidão negra, mas por ter levado o país a se dividir em torno do mérito (além de outros de caráter também econômico) levando a nação à guerra civil de 4 anos (1861-65). Assim, o filme é um tributo a um grande herói político que alterou e guiou o destino da nação, em uma versão Spielbergueriana. E de outro lado, temos “Argo” que mostra um tema mais atual que é o conflito no Oriente Médio e sua relação com a política externa dos Estados Unidos, e mais, o heroísmo em ação real de Hollywood. 


Ben Afleck no set dirigindo seu filme "Argo"

Essa abordagem de “Argo” também esteve e está presente este ano em outras produções mais óbvias como “Guerra ao Terror” de 2009, de Kathryn Begelow e escrito pelo ex-correspondente da guerra do Iraque Mark Boal, que ganhou o prêmio de melhor filme em 2010 (tirando o Oscar das mãos do ex-marido da diretora ganhadora do Oscar, o diretor James Cameron, que concorria com o filme “Avatar”).


Cenas de “A Hora Mais Escura” da diretora  Kathryn Begelow
(Foto: © Columbia Pictures)


















E quando se fala da a única mulher a ganhar um Oscar de melhor direção e melhor filme na história do Oscar, não se pode esquecer de seu último filme “A Hora Mais Escura” (Zero Dark Thrity, título em inglês, que em termos militares significa meia noite e meia), que também concorre ao prêmio de melhor filme. A produção conta a recente e já histórica captura do homem que foi até então, o mais procurado do mundo, Osama Bin Laden, filme que também concorre este ano ao prêmio de melhor filme—além de estar mexendo com o governo dos EEUU, por também abordar o tratamento aos suspeitos de terrorismo na prisão da baía de Guantánamo. Ou seja, estes filmes apresentam um forte apelo nacionalista, seja por sua história, seja pelo seu presente, ambos marcados por guerra.


Kathryn Bigelow (à direita) no set de filmagens de “A Hora Mais Escura”


Quentin Tarantino, por outro lado, este ano se tornou o próprio título de seu filme de 2009, “Bastardos Inglórios” que foi altamente elogiado pelo público e pela crítica. No entanto, este ano ele não usa de sua linguagem tipicamente debochada e descontraída e seriamente construída para falar novamente sobre a 2a. Guerra Mundial, o nazismo e o hilário e corajoso plano para o assassinato de Hitler, que criou uma realidade fictícia para o fim daquela grande guerra tão abordada por Hollywood durante anos. Desta vez, ele mexeu na ferida estadunidense: a escravidão.



Poster de "Django Livre" de Quentin Tarantino


O rebelde Tarantino que conseguiu inovar a linguagem do cinema e a abordagem de temas que só poderiam sair de sua cabeça, podendo ser considerado um diretor nada convencional, desta vez enfrenta uma das maiores críticas a uma criação sua. Isso pode explicar o quê levou o diretor a dizer que estava surpreso após "Django Livre" ganhar o Globo de Ouro de melhor roteiro em janeiro último. Essas duras críticas acontecem por seu tema: negro estadunidense. Ou melhor, pela abordagem de parte da história desse grupo da população dos Estados Unidos que sempre enfrentou dificuldades para se inserir enquanto cidadãos, e que honestamente ainda enfrenta. Sim, mesmo que hoje em dia o país tenha um presidente negro inciando um segundo mandato, o quê torna o assunto ainda mais frágil, tornando a fiscalização sobre o mesmo mais necessária e mais pungente.


Ainda assim, é necessário pensar se essa crítica poderia ser elaborada a partir de uma outra ótica, já que criticar Tarantino pelo deboche é redundante. Uma forma de se pensar no filme é vê-lo como uma espécie de crítica a trivialização do tema escravidão como algo do passado, uma trivialização que é criada pelo distanciamento temporal daqueles fatos que tanto marcaram a vida dos descendentes dos Africanos, e que na realidade ainda afeta a vida de muitos desses descendentes que ainda vivem em situação precária. Casa seja difícil se pensar por este ângulo, não seria possível pensá-lo somente enquanto uma sátira Tarantiniana? Até porque o quê se pode esperar da cabeça do Bastardo Tarantino? O cara é tão bom que pode ser comparado ao Rei Midas da cinematografia contemporânea: ele transforma besteirol em ouro.


Poster do filme "Dajango Livre"

Ainda, se pensarmos na questão da violência, vemos que “Argo” e “A Hora Mais Escura”, também falam da violência através de abordagens sobre a guerra ou sobre situações de conflitos marcados por violência. Mas como já dito, esta abordagem da guerra corajosa presente no imaginário e na heróica história estadunidenses como uma das partes mais nobres do caráter do país, é sempre bem vinda. Ainda mais em um momento de crise onde esse tipo de imagens são um santo remédio.





No entanto, quando vemos Tarantino sendo elogiado e ovacionado com um enredo que mostra um grupo judeus estadunidenses enfrentando Hitler cara-a-cara, mesmo que de maneira satírica e debochada, e agora vemos o mesmo diretor sofrendo duras críticas por tocar na história afro estadunidense, conclui-se que em Hollywood se pode falar de algumas coisas, mas não de outras. Principalmente sobre a violência dos brancos estadunidenses contra os negros durante o período de escravidão, pois abre uma grande ferida na nação já tendo criado uma longa guerra (como mostra Lincoln), diferentemente das crueldades praticadas pelos oficiais nazistas.


E é por isso e por muito mais que quando se fala na questão política em Hollywood aparece uma certa nostalgia, uma certa saudade das noites de entrega do Oscar nos anos 70, quando o palco se tornava um altar de protestos contra as injustiças sociais nos Estado Unidos e no mundo--coisa tentada por alguns durante a era da ditadura G.W. Bush que sofreram boicotes e esculachos pela enorme direita da época. Mas os anos 70 sim, mostrou a coragem dos artistas daquele tempo na utilização de sua fama para elevar causas sociais, diferentemente de hoje onde poucos artistas com culhões ainda ousam em desafiar a noite de gala com discursos de conteúdo político, porque a fama dos artistas nesta grande noite de prêmios é usada pela mídia para elevar, quase que absolutamente, a indústria da alta costura e da moda. Patriotismo e moda talvez sejam algumas das verdadeiras e evidentes políticas cinematográficas de hoje.





Leia aqui a matéria de ontem do Portal G1:




Leia aqui a matéria de hoje da Revista Exame:






















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